Marajó

Um final de semana com feriado e uma ideia que há muito rondava nossas cabeças: pedalar na ilha de Marajó.

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O arquipélago situado no Pará tem a maior ilha fluviomarítima do mundo, localizada na foz do rio Amazonas – na verdade, é graças a ele que o arquipélago existe, já que seus sedimentos vão sendo depositados no caminho até o oceano Atlântico, formando milhares de ilhas. Há milênios atrás era habitada por índios Marajoara, uma sociedade complexa e sofisticada da qual conhecemos a beleza das cerâmicas que ainda são reproduzidas na região.

Para chegar até lá, só precisávamos, eu e meu namorado, viajar 600 km de carro até Belém, ao som de Criolo e Afrobombas, nossa trilha sonora oficial on the road, depois pegar uma balsa no porto de Icoaraci com destino ao porto de Camará e curtir 3 horas no balançar das ondas do rio-mar, observando a paisagem repleta de ilhotas cobertas por mata e o trânsito de navios.

Às 7 horas do sábado estávamos no porto lotado; se quiséssemos desistir da missão de pedalar e ir de carro, não teria vaga de qualquer jeito, já que era fim de semana de feriado e balsa não é fácil, especialmente para quem não compra passagem com antecedência. Então deixamos o carro na garagem de um restaurante em Icoaraci, prendemos as bicicletas na balsa e partimos numa viagem tranquila. Sorte nossa, aliás, porque as histórias que contam sobre marés com ondas imensas que inundam o interior da balsa não são lá muito agradáveis.

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Às 11 horas chegamos em Camará, tomamos água de coco, pegamos algumas informações com o vendedor e dali fomos pedalando até Joanes. Logo de cara recusamos uma carona, algo não tão sensato quando se trata de pedalar depois das 10 horas da manhã. Mas tínhamos ido com a missão de pedalar, queríamos muito fazer isso, e fomos mais na vontade de uma experiência alternativa do que como ciclistas, naquele sentido tradicional.

A verdade é que não tínhamos muita dimensão da dificuldade, especialmente porque recebemos informações erradas quanto à distância entre Camará e Joanes: achávamos que faríamos 12 km, mas fizemos pelo menos 20 km. Por isso é que muito antes da metade do caminho até a primeira parada o sol e o vento mais forte do ano, o do mês de setembro, correndo no sentido contrário ao que pedalávamos, foram desafiadores.

Mas esse é um trajeto especial: Marajó tem estradas tranquilas e a gente vai encontrando com  búfalos pacatos e gente simpática no meio do caminho, sentindo o cheiro de peixe sendo assado na brasa em cada casa de cada vila, fazendo com que o esforço do pedal fosse recompensado, tanto que sequer houve motivo para estresse. Às vezes o carro torna tudo mais preguiçoso e menos atraente. De bicicleta a gente ia sentindo a estrada, o clima, ia entrando na vibe do lugar.

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Quando chegamos em Joanes fomos direto para a praia almoçar. A comida era boa, mas não era o que queríamos: o peixe na brasa no estilo tradicional paraense. Tínhamos ficado com o desejo da pescada amarela cujo cheiro sensacional sentimos quando paramos para comprar água no caminho entre Camará e Joanes. Quase nos convidamos para almoçar o peixe da vó, mas contivemos a cara de pau só porque parar para almoçar tiraria nossas forças para continuar pedalando. Então seguimos…

A praia de Joanes tem areia amarronzada e fria e as águas mornas com ondas fortes douradas  pelo sol, algo que me lembrou muito de Mosqueiro, no Pará, que também tem a mesma água salobra do rio-mar, mais doce pelo rio que salgada pelo mar. Por conta das inúmeras ilhotas com vegetação exuberante ao redor, as ondas trazem troncos e galhos que enchem a praia. Por conta disso, pode ser um pouco incômodo mergulhar quando a maré está enchendo.

Joanes é antiga e bucólica. Em uma praça, há ruínas de uma igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em cima de uma morrinho de onde se avista a praia. Um cenário encantador, ótimo para ver o entardecer, sentindo o vento que fica mais forte com a maré cheia. Depois de anoitecer, o programa (pelo menos o meu) é comer um pouco de todas as comidas típicas. As minhas preferidas são o arroz com galinha (um delicioso arroz branco bem temperado com cheiro verde e pimenta de cheiro, frango desfiado, milho e batata palha), o tacacá (caldo de tucupi com folha de jambu e camarão seco) e o vatapá paraense (creme feito com azeite de dendê e camarão seco, servido com arroz branco, folhas de jambu e um tiquim de tucupi).

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No dia seguinte, acordamos cedo e pedalamos em direção a Salvaterra, até o ponto de travessia de barcos que levam à Soure. Uma viagem curtinha de rabeta – onde vai gente, bicicleta e moto – e chegamos na “capital” do Marajó. Sentamos para tomar um suco na feira, um cenário bem paraense, com  barraquinhas de produtos naturais e óleos mágicos, açaí, mingau e peixe frito, quando meu namorado descobriu uma conhecida na barraquinha de ervas. Foi assim que conseguimos hospedagem e realizamos o desejo de comer peixe assado na brasa (pratiqueira fresquinha, leve, deliciosa) e de quebra ainda comemos caranguejo (enooorme) e provamos o churrasco de búfalo (fiquei com dó).

A tarde partimos para a praia do Pesqueiro, que fica um pouco distante do centro de Soure, por isso pegamos uma Kombi coletiva para chegar até lá, ao invés de ir pedalando. Porque, afinal, já tínhamos vencido o desafio do sol e do vento contra, podíamos nos dar esse prêmio de passear de transporte coletivo e precisávamos recuperar as forças para voltar ao porto de Camará no dia seguinte. E aí a paisagem mais linda de todas estava à nossa espera na Praia do Pesqueiro: uma imensa faixa de areia branca, com um mar imenso (essa praia fica para o lado do oceano, já não é mais rio-mar), com ondas que quebram mais fortes em bancos de areia longe da beira e fazem com que o banho seja mais tranquilo – pelo menos para mim, que gosto de ficar boiando de leve.

A água tem um quê de azulado, mas é predominantemente dourada, como costuma ser todo o litoral paraense, isso por conta dos sedimentos do rio Amazonas. Muitas poças de água se formam ao longo da areia e para chegar até o mar é preciso atravessá-las. É bom atravessar onde há gente se movimentando e fazer isso arrastando os pés, pois existe o risco de encontrar arraias, já que essas poças são lamacentas – e o curioso é que muita gente, entre crianças e adultos, prefere tomar banho nas poças-casas-de-arraias do que no mar. Eu, que cresci na beira do rio, morro de medo dos bichos das águas e por isso prefiro o mar, aberto e movimentado, que os igarapés cheios de cobras gigantescas, poraquês e seres mágicos puxadores de pé (segundo as lendas paraenses).

Andando mais adiante, encontramos um rio desaguando no mar, serpenteando por entre o manguezal, algo de beleza surpreendente. As águas desse rio se abrem como se fossem num semicírculo arredondado, como uma enseada de encontro do rio com o mar, um lugar ótimo para quem quer mergulhar sem o incômodo das ondas. A riqueza do manguezal é encantadora e atravessando esse rio dá para chegar a outras praias, mas é preciso ter cuidado com a maré que enche e torna a travessia de volta impossível.

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O Pará tem duas estações: a de chuvas e a de seca. No Marajó, entre dezembro e abril costuma chover muito. A beleza de visitar a ilha nessa época é ver os campos que alagam e se enchem de guarás, aves vermelhas símbolo da região do nordeste paraense e de Marajó. Em setembro as chuvas já não ocorrem e os campos estão secos, então não tivemos a oportunidade de vê-los repletos de guarás e búfalos, por outro lado, para a visitação das praias e o pedal, a seca é o melhor período. Na época das chuvas é mais fácil ver como as águas são significativas na cultura desse pedaço do Pará. Afinal, muitas pessoas vivem em áreas que alagam, em cima de palafitas, e o meio de transporte principal é o barco. A mudança das águas também influencia na pesca e na criação dos búfalos.

No total, foram 70 km de bike e uma experiência única num lugar único. Meu espírito se entusiasma com o singular de cada local, de cada vivência, e há tanta beleza e diversidade em Marajó… Além do quê, adoro o rústico de suas praias, majestosas em sua natureza e ritmo lento, característica que se repete pelo litoral paraense. Mas não é todo mundo que reage com entusiasmo à Ilha de Marajó e as críticas vão justamente na rusticidade da região.

Se o desejo é permanecer no ritmo da metrópole e encontrar praias urbanas e agitadas, o Nordeste tem excelentes locais. Se o que se quer é água de azul caribenho, melhor comprar passagens para o Caribe. Se há espanto com o fato das vilas marajoaras terem apenas uma pracinha e algumas ruínas, melhor seguir os roteiros do Velho Mundo e admirar as piazzas romanas, porque Amazônia é outra história, uma história incrível de um lugar que tem a sorte de se relacionar mais intimamente com a natureza nesses tempos em que nós estamos tão dissociadas dela e, sinceramente, eu prefiro que permaneça assim.

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Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

Cabo Verde ou, carinhosamente, Brasilinho

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Acostumada com as dimensões continentais do Brasil, foi surreal avistar, do alto, aquela curva de ilha que o mar parecia querer engolir. A silhueta de terra e o mar gigante… Pousamos em Cabo Verde, na Ilha de Santiago, recebidas com a aridez de montanhas nuas a perder de vista, o céu nublado sem chuva e o vento agradável às 6 horas da manhã. Saímos de táxi e a paisagem permaneceu a mesma durante um bom tempo. O asfalto muito preto, as linhas da pista muito brancas e as montanhas nuas e acinzentadas como se dissessem que tinham nascido de um esporro de vulcão.

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Depois de viajar pela aridez da estrada, a cidade apareceu: Praia, amarela, com seus prédios baixos, quadrados, quase sempre amarelos como os táxis, mas algumas vezes de concreto cinza. O mercado de Sucupira, com o prato de comida de 200 escudos e uma garrafa de cerveja portuguesa, foi o primeiro destino. Quando perguntamos por almoço no mercado, nos mandaram procurar pela cozinha entre as barraquinhas debaixo do sol.

A “cozinha” é um conjunto de cubículos, com duas mesas no máximo cada um, em que se servem pratos prontos muito parecidos com a comida brasileira: arroz misturado com feijão, “bife” de atum, carne de vaca ou galinha, batata frita e salada. Ouvimos dizer que o arroz consumido lá vai da China e embora tenha o gosto parecido com o nosso e seja solto, é de uma consistência mais liguenta. O bife de atum é especial e a palavra-chave para receber um tempero extra é sabor.

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No mercado há muitos senegaleses vendendo seus tecidos e confeccionando roupas sob medida – vestidos e saias com cortes simples, na maioria das vezes. Gastamos horas em barracas de roupas tradicionais, maravilhadas com o que mais há em Sucupira em todas as cores, estilos e texturas: desde a simplicidade das chitas em lindas estampas até a impressionante elegância do batik. Mas descobrimos muita mercadoria brasileira também: fileiras e mais fileiras de chinelos Havaianas, sapatos e roupas – muita malha e jeans – que as sacoleiras caboverdianas vão comprar nas feiras e fábricas do Nordeste.

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A noite em Praia é muito agradável. A cidade tem restaurantes e bares bem charmosos. Um deles é o Quintal da Música, um lugar especial com excelente comida e música ao vivo. No repertório da noite em que fomos lá tinha música brasileira, mas gostoso mesmo é ouvir a sonoridade do criolo, língua que na prática é a oficial do país. Falando em música, vale a pena conhecer o som produzido em Cabo Verde. As mulheres arrasam com a batuqueira. Elas demonstram força e beleza incrível quando tocam, cantam e dançam. Deve estar certo o espanhol, dono de um restaurante onde almoçamos, que disse que “em Cabo Verde todo mundo é músico“.

Quintal

Saímos de Praia, no sul da Ilha de Santiago, e fomos para Rabelados, uma comunidade camponesa tradicional e religiosa, situada no município de Espinho Branco, norte da ilha. Levamos poucas horas para chegar lá e no caminho de ida fomos parando para conhecer alguns lugares. Estivemos na casa de Amílcar Cabral, ícone intelectual, político e dirigente da luta armada pela libertação de Cabo Verde e Guiné-Bissau da colonização portuguesa e visitamos o antigo campo de concentração do Tarrafal, onde vários guerrilheiros que lutavam pela independência foram presos e torturados.

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A grandiosidade do Baobá no terreno da casa de Amílcar Cabral.

Os rabelados têm uma história muito interessante. Eles foram discriminados por tentar manter suas tradicionais culturais e religiosas, ainda no período em que o país era colônia de Portugal, e por isso se refugiaram em uma região de montanhas. Com isso, perpetuaram suas tradições, acabaram por adquirir um espírito de resistência e mantiveram sua essência, em boa parte por conta da arte que produzem. A experiência na comunidade foi propiciada pelo encontro da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS). Quando chegamos, fomos recebidos pelas pessoas com a comida símbolo de Cabo Verde, a cachupa. Sinal de que fomos realmente acolhidos.

Comunidade de Rabelados

Além de Praia e Rabelados, fomos na Cidade Velha, antiga Ribeira Grande, fundada em 1462 e primeira cidade construída pelos portugueses nos trópicos. Algumas construções estão toda ou parcialmente debaixo da terra, há muitas ruínas e algumas escavações arqueológicas podem ser vistas no entorno da cidade. Tudo é tão pequeno – a praça, as ruas, as casas – que dá para fazer um tour bem legal em uma manhã. Mas como cidade não é só ponto turístico, é bom ficar pra andar pelos espaços fora do eixo, conhecer algumas pessoas e comer a comida local, como a cachupa, búzios guizados, lagosta ou filé de atum fresquinho.

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A sensação de andar pela Cidade Velha é de andar pelo Brasil antigo… mas como eu saberia disso? Acho que é a impressão do imaginário do passado colonial criado pela história e pela literatura. Andando pelas ruas, eu me sentia como nas descrições que Aluísio Azevedo fez em O cortiço ou em Casa de Pensão.  Uma senhora que conhecemos em Praia nos disse que lá as pessoas costumam gostar muito do Brasil e é corrente a expressão de que Cabo Verde é um Brasilinho.  Acontece que tudo o que os portugueses fizeram aqui foi feito primeiro lá; Salvador, na Bahia, é como uma grande Cidade Velha. Cabo Verde era a parada das embarcações que saiam da Europa, passavam pela África e partiam para a América.

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Cabo Verde me marcou profundamente. As pessoas de lá, que parecem ter no espírito a expressão da natureza que as rodeia, são simpáticas e bonitas ao mesmo tempo em que são fortes e orgulhosas, além de terem aquele sotaque que parece música. Nos dias em que estive lá,  fui interiorizando a paisagem cortante, o mar de azul muito escuro, as montanhas negras e áridas e os vales verdes e úmidos, uma natureza tão diversa e ao mesmo tempo tão resistente e bela. E mais uma vez, mais uma viagem me transformou.
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Amanhecer em Rabelados

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

Chapada dos Veadeiros: entre ETs e entre tantos

Precisávamos de um lugar para passar férias e alguns amigos já tinham nos contado de lá umas histórias boas. Depois de algumas semanas pesquisando tudo, pegamos avião, carro e fomos até o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros/GO. Os relatos de viajantes falavam de um lugar mágico e místico, que emanava energia de pureza tranquilizante. De fato, a Chapada dos Veadeiros é um paraíso não tão escondido, mas inacreditável. Entre ETs e entre muitos malucos que vagam por lá no período de julho, chegamos.

A Chapada dos Veadeiros nos recebe com uma paisagem de tirar o fôlego!

Bom, quanto aos ETs – com os quais eu vivo sonhando, diga-se de passagem – não posso lamentar que o contato tenha se limitado aos vários bonecos espalhados pela cidade de Alto Paraíso e pela Vila de São Jorge, entrada para o Parque e local do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, que ocorre em julho – à propósito, esse foi um dos motivos de nossa viagem ter sido nessa época. Embora a cidade nos receba com uma nave espacial no arco de entrada e uma parte do turismo se deva à tentativa de contatos extraterrestres, nós não tivemos a felicidade de topar com turistas intergaláticos.

Jardim de Maytrea: dizem que um dos locais com maior concentração de energia do planeta…

 A vantagem de estar em São Jorge em julho é participar do Encontro, que reúne culturas de vários estados do país e de algumas partes do mundo. É uma experiência gratificante e memorável. Durante o dia e à noite, rolam as oficinas, como as de maracatu, e no palco, o centro convergente do evento, os shows de música e dança, que variam de atrações folclóricas a músicos famosos. As ruas lotam de pessoas e a Vila se enche de barraquinhas de artesanato, comidas e músicos que tocam ao ar livre, em restaurantes ou em bares com fogueira e luar.

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Luau de música instrumental…ouvimos Alceu Valença em baixo, bateria e trompete.

Nossos dias consistiam em acordar cedo, tomar um bom café e partir para as trilhas, que incluíam longos trajetos de carro e a pé, subidas de morro, banhos em poços de água gelada, mirantes para ver o horizonte e sentir a emoção de estar viva – que andava vacilante -, encontros com rios de saltos espetaculares e travessias cabalísticas – não é sempre que se atravessa o mesmo rio sete vezes para chegar a um local misterioso de vento frio e úmido que parece cantar, cercado por paredões altos, com aparência de cenário de filme em que a qualquer momento seres místicos da floresta surgem de dentro da água e por entre a vegetação.

Cachoeira e Poço do Segredo.

Cachoeira e Poço do Segredo.

À noite a Vila proporciona a experiência  do choque de culturas com gente de mundos diferentes, que de certa forma se reúne com um sentimento de humanidade e de respeito pela ancestralidade em comum, mas que também se diverte e procura a paz tão rara num encontro consigo mesmo entre tantos…O exercício da alteridade: cantos dos hinduístas pelas ruas, algumas orações cristãs, a religiosidade afro expressa na vestimenta do rapaz da barraquinha de acarajé, a música que é jazz, reggae, eletrônica, nordestina instrumental, o cinema  que é aberto e a exposição visual nas paredes da casa do artista plástico local, desafiando qualquer noção ou perspectiva de normalidade, tudo confluindo para o espaço público da Vila, que se parece com uma grande praça.

Paredes da casa do Moacir, artista local

Paredes da casa do Moacir, artista local

Estar na Chapada dos Veadeiros é uma experiência que, ao nos fazer entrar em contato com a natureza ao redor, nos remete ao nosso próprio interior, nosso espírito, nossa natureza, ao funcionamento do nosso corpo e às nossas emoções. Em alguns momentos estar lá foi tenso e é impossível negar que a viagem desencadeou uma série de mudanças no meu comportamento. Em parte, o potencial perigo de algumas trilhas, o olho sempre voltado para o abismo ou para a profundeza de lagos escuros, tapeando uma mente que estava se acostumando a sentir só medo. Por outro lado, o choque das energias puras da natureza com as energias perturbadas de descrença e ansiedade.

As águas cristalinas do Rio Preto...

As águas cristalinas do Rio Preto…

A velha história da (re)descoberta de si mesma que viagens costumam proporcionar e que, embora nem sempre sejam longas, compensam por serem intensas. Mas nada da alegria efusiva que costumam alardear; redescoberta pode ser algo muito mais sutil, lento e doloroso e que pode ser sentido muito depois do fim da viagem. Foi lá que despertei para medos e sentimentos que ignorava e isso costuma doer. No entanto, não consigo lembrar da Chapada sem sentir felicidade, porque um encontro feliz é mais sincero que superficialmente alegre e empolgado e por isso a saudade e vontade que sinto de voltar, agora com outro espírito e visões, para atravessar cabalisticamente sete vezes um rio que não é mais o mesmo, sendo eu não mais a mesma…

Rio Preto cortando a Chapada...

Rio Preto cortando a Chapada…

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros