As três Marias

Lidiane Dutra

Ilustração: Lidiane Dutra

Raquel de Queiroz não fez uma escolha aleatória quando deu o título As Três Marias ao livro em que trata das limitadas possibilidades de existência da mulher, mesmo a privilegiada, na sociedade do início do século XX. Maria é um nome comumente associado a uma vida de restrições relacionadas ao gênero e à posição social, e a despeito desta condição não ser natural, mas determinada pelo meio em que se vive, por vezes a Vida Maria é de tal forma imposta que não é difícil associá-la com a predestinação: um destino escrito nas estrelas.

Maria Augusta (Guta), a protagonista, cresce no interior do Ceará, num internato de freiras, junto com Maria da Glória e Maria José. Sua narrativa permeia memórias da infância no mundo limitado do colégio, quando ela e as amigas sonham com os prazeres da cidade e cometem pequenas transgressões:  fazem amizade com as órfãs pobres do colégio, que aprendiam um ofício ao invés de receber a educação sofisticada das internas, uma restrição baseada na desigualdade de classes sociais e percebida pela protagonista sensível, leem livros proibidos e escrevem jornais satíricos – sendo a leitura e a escrita formas de autoexpressão e empoderamento.

Guta sai dos limites da escola e se desvencilha das raízes da casa paterna desejando experimentar o mundo, horrorizada com a monotonia da vida doméstica junto da família tanto quanto com a reclusão do colégio; ela quer ser livre e quer viver uma vida complexa. Por isso parte em busca de um encontro consigo no mundo, esse maravilhoso e dolorido processo de individuação, e como qualquer uma de nós, dá de cara com outras prisões: as relações românticas idealizadas como salvadoras ou transformadoras, a rotina massacrante e o trabalho monótono.

Tinha eu dezoito anos quando comecei a trabalhar, e seis meses depois já sentia medo de ficar velha sem saber o que era o mundo. (…) Andar. Viver. Viver uma vida complexa, onde as criaturas realmente existem, amam, sofrem, morrem, não sabem o que é passar a vida sentadas a uma máquina escrevendo fichas, batendo relatórios que os outros escreveram, coisas vis e sem humanidade, palavras que não têm existência real e não têm conteúdo, que não designam nada, senão as relações absurdas de gente que é apenas uma fórmula ou um título.

Conforme a narrativa vai entrando nos domínios de sua jovem vida adulta, a ingenuidade nostálgica e melancólica da protagonista vai se desconstruindo, amadurecendo-a. As histórias de mulheres com quem Guta se relaciona vem à tona e seus destinos são esmiuçados em descrições breves, porém marcantes, como se num ritual de reconhecimento de outras vivências, escolhidas conscientemente ou impostas, ela pudesse compreender seu próprio caminho no mundo.

Foi por conta desse livro, lido pela primeira vez quando eu tinha apenas doze anos, que me dei conta do meu gosto por narrativas que se preocupam menos com o desenrolar dos fatos e mais com a evolução psicológica das personagens. Guta amadurece, observa a vida com a distância de quem volta os olhos para o passado e desenvolve resistência às adversidades do mundo.

Se a vida livre, destino comum de um homem, ainda hoje encontra relutância quando se trata do desejo de uma mulher, na época em que o livro foi publicado, 1939, tal expressão era uma verdadeiro afronta. Confinamento, fuga, aceitação e subversão da condição feminina são tanto temas quanto parte do universo real em que essa obra foi criada.

O mundo: grande era minha sede. Não de prazeres, ou melhor, não só de prazeres. Minha alma era como a daquele soldado da história de Pedro Malasarte que abandona tudo, sai de mochila às costas, sofre fome, perseguições, anda cheio de poeira e cansaço por cidades estranhas (…). Ele, porém, escravo do desejo de “ver”, de “conhecer”, afronta tudo. (…) Eu me sentia igual a ele, éramos irmãos nós dois, o soldado e eu, sendo eu a irmã que ficara, que o não pudera acompanhar, e lhe estendia os braços e chorava.

Suas melhores amigas e cúmplices, Maria da Glória e Maria José, seguem por caminhos diferentes, suas estrelas ditam outras histórias. A Glória, triunfante, a estrela mais brilhante do céu e sempre privilegiada, sem grandes imaginações para desejos difíceis, aceita a sorte que lhe cabe de bom grado e prefere seguir naturalmente o papel exigido pela sociedade para a mulher: o casamento.

A José, estrela trêmula e modesta, de trajetória familiar sofrida e que leva no nome a identidade masculina e feminina, vive a repressão de uma sexualidade incompreendida, rejeitando aquilo que é visto como aberração pelo mundo e que lhe foi ensinado nos anos de reclusão escolar: segue uma vida beata.

Maria Augusta, inquieta, quando insiste pela liberdade de viver longe de suas raízes e construir uma história própria, descobre com angústia o quanto é difícil ver-se livre da vida comum; observa e sofre com o mundo, angustia-se, não aceita as correntes que a aprisionam. É a estrela ardente e molhada, que escolhendo o caminho mais difícil, oposto à tradição, recebeu como recompensa o destino da mulher livre: a solidão.

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