Cinzas

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Eles se acumularam na parte de cima do meu armário desde os seis ou sete anos e pesavam em mim. Com dezesseis, resolvi queimá-los, todos os diários que tinha tido até então, numa fogueira malfadada pela terra molhada, trêmula, não de frio, mas de emoção.

Era o meu desejo de me reinventar impedido pela existência de um passado escrito. Senti que podia recomeçar depois daquela fogueira, limpa, uma folha em branco, um caderno novo, emoções novas, um outro eu.

Constantemente sinto vontade de trocar de pele, mudar tudo. Não tento ser outra pessoa, trocar de pele é tentar todos os meios de ir de encontro à minha essência verdadeira, ser tão eu que me baste. Finda. Pois sinto que estou inteira, aqui, em algum lugar dentro de mim, um lugar distante dentro de mim.

Pronuncio meu nome em voz alta, me chamo e sei que sou, ainda que não saiba o quê; existo. Existo um pouco no meu cabelo e nos meus olhos e eles mudam. Existi num sorriso que já mudou, nas roupas que já foram. Mas a palavra, depois de escrita, é sempre presente, mesmo que não diga de mim mais nada.

Guardo todos os diários seguintes. Releio, às vezes. Não sinto mais que preciso destruí-los para poder recomeçar, pelo contrário. É como um quebra-cabeças, um jogo de memória, uma linha que vai ascendendo, fazendo sentido.

Por vezes me esqueço, esqueço de sonhos, e quando volto, quando voltam os sonhos, é como se fosse a primeira vez. Então me surpreendo, lendo; o que escrevo agora, já tinha escrito de outra maneira, porque já tinha pensado, já tinha sido tudo aquilo. Me dou conta de que me repito, mas às vezes também encontro escrito o que já deixou de existir.

É verdade que me crio e me invento; me invento pelo que sou e me forjo com o que inventei, por vezes livre e sem pensar, pela vida que me experimenta e que experimento; por vezes metodicamente, um trabalho minucioso e artesão, mas nunca frio, nem como uma farsa – não esculpo uma máscara, pois sou tirada das vísceras; dói.

Crio como uma síntese; algumas coisas ou nunca morrem ou se transformam das cinzas.

Fotografia: autoria desconhecida (retirada do Pinterest)

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