Leitura: Não sou uma dessas

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Tomei duas decisões tardias em 2015: ler mulheres e ler mais obras que não fossem teóricas, já que passei a maior parte dos cinco anos na universidade longe demais do universo literário ficcional (ou não-teórico) e acho que isso mata um pouquinho da minha sensibilidade. Então, voltar ávida às leituras não-teóricas não é só uma questão de gosto, é uma necessidade…

Segui na minha lista de livros escritos por mulheres com Não sou uma dessas, de Lena Dunham, nova-iorquina criadora e protagonista de Girls, série produzida para a HBO sobre a vida de garotas e seus perrengues típicos do início da vida adulta. Sou espectadora esporádica de séries – fico meses sem ligar a TV – por isso assisti Girls somente algumas vezes, mas lembro de ter gostado do que vi, da fotografia  e do roteiro cômico e original.

Na verdade eu não sabia do livro até vê-lo na livraria. Sou muito visual e a capa me chamou logo a atenção, mas foi só por ter visto alguns episódios da série que me interessei em lê-lo. A aparência lembra um pouco aquela urgência dos best-sellers que prometem mudar sua vida definitivamente contando um relato de superação, mas a história  não é sobre isso, pelo contrário.

O livro é composto por tópicos no esquema das revistas femininas, com os temas Amor&Sexo, Corpo, Amizade, Trabalho e Panorama (que me remete às crônicas levinhas que costumam aparecer nas últimas páginas dessas revistas). A diferença é que ela não vai dar dicas de comportamento, como as revistas fariam, e sim falar, de maneira hilária e autocentrada, sobre como encarou cada uma dessas questões entre a adolescência e a idade adulta.

Há um fio condutor na trama que, mesmo não sendo linear, mostra uma personagem que vai amadurecendo, desde as primeiras páginas, quando ela parece mais adolescente e insegura, até as últimas, quando ela fala sobre o trabalho em Girls, sobre relações amorosas mais saudáveis e sobre satisfação e autoaceitação. Lena tem uma personalidade ansiosa, insegura, inquieta, egocêntrica, que necessita afirmar-se o tempo todo em todos os aspectos da vida, o que a torna muito intensa, mas também propensa a cagadas.

A escrita é autobiográfica, porque usa a experiência pessoal como matéria-prima, mas não é uma trajetória de vida e carreira, que é o que caracteriza a autobiografia propriamente dita. Não sou uma dessas segue um roteiro em que a experiência pessoal é essencial, certamente, mas tratá-lo como uma autobiografia somente é reduzir as possibilidades do texto.  E ela deve ter sido muitas vezes criticada por esse estilo de escrita mais livre e pessoal, porque logo nas primeiras páginas ela expõe a questão:

“Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe que tenhamos chegado, ainda existem forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. Que a escrita pessoal feminina não passa de um exercício de vaidade e que nós deveríamos apreciar esse novo mundo para mulheres, sentar e calar a boca.”

Na maior parte do livro, Lena descreve suas várias relações afetivas e sexuais, quase todas desastrosas, com homens que tiveram um sentimento de atração-repulsa meio doentia por ela e que, a despeito disso, ela insistiu em manter em uma relação dolorosa, como um caso que teve com um cara mais velho que conheceu quando trabalhava de garçonete em um restaurante:

“As primeiras poucas vezes em que Joaquin e eu transamos foram rápidas e um pouco tristes. As lâmpadas do teto zumbiam. Ele não olhou para mim e depois logo foi embora. Achei que, de alguma forma, talvez tivesse sido minha culpa. Talvez eu fosse um saco de batatas, sem criatividade na cama, paralisada pelo meu desespero de agradar. Talvez estivesse destinada a ficar lá deitada, dura feito pedra, até ser velha demais para fazer sexo.”

Às vezes, a relação acontece mais no mundo das ideias dela e nem o sexo se concretiza, como no caso que teve com um cara, ex-celebridade televisiva fracassada precocemente, emocionalmente traumatizado por um antigo relacionamento, por um cachorro que havia morrido e por algo que tinha a ver com a guerra no Iraque (embora ele não tivesse ido à guerra):

“No dia dos namorados, vesti uma lingerie e implorei para que ele, por favor, finalmente transasse comigo. A litania de desculpas que ele apresentou em resposta teria sido cômica se não fosse trágica: “Quero conhecer você melhor” “Não tenho camisinha.” “Tenho medo, porque gosto muito de você.”. Ele tomou calmante e dormiu, o braço estendido do meu lado, e, enquanto estava deitada lá, plenamente acordada e toda me coçando por causa da lingerie de renda, ocorreu-me que aquilo era humilhante, assexual e, pior de tudo, enfadonho. Aquilo não era conforto. Era paralisia.”

Mas nem só de frustrações sexuais é feita a narrativa do livro, embora elas estejam na maior parte dele. Me identifico com o que ela fala sobre os problemas com a escola e, depois, com a faculdade, a resistência com a autoridade, a rotina e os limites que permeiam as experiências com a educação formal; sobre ter desejado tanto entrar na universidade e depois ter desejado tanto sair, e, no fim, sobre sentir culpa e arrependimento por achar que poderia ter aproveitado melhor a experiência da época de estudante, ao invés de ter passado tanto tempo idealizando o futuro, especialmente o profissional:

“Se eu soubesse o quanto sentiria saudade dessas sensações, eu poderia tê-las vivenciado de outra forma, reconhecido seu glamour banal e respeitado o tique-taque do relógio que definiu toda essa experiência. Teria colocado meu ressentimento de lado, abaixado a guarda. Eu poderia ter um conhecimento básico da história ou da economia europeia. De uma forma abstrata, poderia sentir que de fato tinha estado em algum lugar, aberta, porosa e com vontade de aprender. Porque ser estudante era uma identidade invejável, uma que só poderei recuperar se um dia me matricular num curso livre de produção de livros ou coisa do tipo.”

Ou, talvez, esses arrependimentos sejam idealizações do passado, o que não deixa de ser o outro lado problemático da idealização:

“Não absorvi a essência da sala de aula. Não fiz anotações claras nem dancei a noite toda. Achei que acabaria me casando com meu namorado, envelheceria e ficaria de saco cheio dele. Achei que manteria os meus amigos e teríamos lembranças novas e diferentes. Nada disso aconteceu. Coisas melhores aconteceram. Então, por que ainda estou triste?”

Angústias existenciais, a idealização excessiva do futuro e da própria existência, os pensamentos obsessivos sobre a morte, o sentido da vida, sonhos de grandeza, o desejo intenso de fazer algo significativo no mundo, a identificação excessiva com as próprias ideias, a ansiedade crônica e o transtorno dissociativo, são outras questões expressas no livro:

“A ansiedade que me acompanha pela vida como um amigo ruim tinha reaparecido com força e assumido uma forma totalmente nova. Eu sentia como se estivesse fora do meu corpo, me vendo trabalhar. Não me importava se teria sucesso ou fracassaria porque não tinha certeza absoluta se estava viva. Entre as cenas, me escondia no banheiro e rezava pela capacidade de chorar, um sinal indubitável de que eu existia de verdade. Não sabia porque aquilo estava acontecendo. A realidade cruel da ansiedade é que você nunca acha que é boa o bastante.”

Lena Dunham relata sua própria vida de maneira nua e escancarada; sem dar muitas respostas, menos ainda definitivas, propõe contar tudo o que aprendeu, como se isso fosse uma missão de vida. Ela própria confessa que suas experiências foram limitadas a um universo privilegiado e que num dado momento percebe que viveu num mundo distante da realidade comum; isso a fez buscar o máximo de vivência, mas talvez não perceba que é preciso sair um pouco de si para ter experiências mais ricas com o mundo real…

Não sou uma dessas tem seus méritos, um deles o de ser escrito por uma mulher que dá a cara à tapa com coragem para falar sobre suas próprias incongruências. O título em português soa ruim, já que parece desprezar mulheres em geral, colocando a autora como alguém superior por ser supostamente diferente. Mas em inglês Not that kind of girl sugere mais alguém fora dos padrões de beleza e comportamento e a voz dessa pessoa fora dos padrões é outro mérito do livro.

Ainda que a escrita seja uma expressão da individualidade, ela não deixa de ser produto de um tempo e é por seus textos serem repletos dos anseios desses tempos, apesar da diversidade e da distância que existe entre a geração classe média alta, branca e privilegiada de Nova York e o resto do mundo (inclusive o resto do mundo em NY), é por esses anseios em comum que tanta gente se identifica com suas histórias.

 Fotografia: Alexandra Duarte

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