Cabo Verde ou, carinhosamente, Brasilinho

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Acostumada com as dimensões continentais do Brasil, foi surreal avistar, do alto, aquela curva de ilha que o mar parecia querer engolir. A silhueta de terra e o mar gigante… Pousamos em Cabo Verde, na Ilha de Santiago, recebidas com a aridez de montanhas nuas a perder de vista, o céu nublado sem chuva e o vento agradável às 6 horas da manhã. Saímos de táxi e a paisagem permaneceu a mesma durante um bom tempo. O asfalto muito preto, as linhas da pista muito brancas e as montanhas nuas e acinzentadas como se dissessem que tinham nascido de um esporro de vulcão.

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Depois de viajar pela aridez da estrada, a cidade apareceu: Praia, amarela, com seus prédios baixos, quadrados, quase sempre amarelos como os táxis, mas algumas vezes de concreto cinza. O mercado de Sucupira, com o prato de comida de 200 escudos e uma garrafa de cerveja portuguesa, foi o primeiro destino. Quando perguntamos por almoço no mercado, nos mandaram procurar pela cozinha entre as barraquinhas debaixo do sol.

A “cozinha” é um conjunto de cubículos, com duas mesas no máximo cada um, em que se servem pratos prontos muito parecidos com a comida brasileira: arroz misturado com feijão, “bife” de atum, carne de vaca ou galinha, batata frita e salada. Ouvimos dizer que o arroz consumido lá vai da China e embora tenha o gosto parecido com o nosso e seja solto, é de uma consistência mais liguenta. O bife de atum é especial e a palavra-chave para receber um tempero extra é sabor.

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No mercado há muitos senegaleses vendendo seus tecidos e confeccionando roupas sob medida – vestidos e saias com cortes simples, na maioria das vezes. Gastamos horas em barracas de roupas tradicionais, maravilhadas com o que mais há em Sucupira em todas as cores, estilos e texturas: desde a simplicidade das chitas em lindas estampas até a impressionante elegância do batik. Mas descobrimos muita mercadoria brasileira também: fileiras e mais fileiras de chinelos Havaianas, sapatos e roupas – muita malha e jeans – que as sacoleiras caboverdianas vão comprar nas feiras e fábricas do Nordeste.

Sucupira fashion

A noite em Praia é muito agradável. A cidade tem restaurantes e bares bem charmosos. Um deles é o Quintal da Música, um lugar especial com excelente comida e música ao vivo. No repertório da noite em que fomos lá tinha música brasileira, mas gostoso mesmo é ouvir a sonoridade do criolo, língua que na prática é a oficial do país. Falando em música, vale a pena conhecer o som produzido em Cabo Verde. As mulheres arrasam com a batuqueira. Elas demonstram força e beleza incrível quando tocam, cantam e dançam. Deve estar certo o espanhol, dono de um restaurante onde almoçamos, que disse que “em Cabo Verde todo mundo é músico“.

Quintal

Saímos de Praia, no sul da Ilha de Santiago, e fomos para Rabelados, uma comunidade camponesa tradicional e religiosa, situada no município de Espinho Branco, norte da ilha. Levamos poucas horas para chegar lá e no caminho de ida fomos parando para conhecer alguns lugares. Estivemos na casa de Amílcar Cabral, ícone intelectual, político e dirigente da luta armada pela libertação de Cabo Verde e Guiné-Bissau da colonização portuguesa e visitamos o antigo campo de concentração do Tarrafal, onde vários guerrilheiros que lutavam pela independência foram presos e torturados.

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A grandiosidade do Baobá no terreno da casa de Amílcar Cabral.

Os rabelados têm uma história muito interessante. Eles foram discriminados por tentar manter suas tradicionais culturais e religiosas, ainda no período em que o país era colônia de Portugal, e por isso se refugiaram em uma região de montanhas. Com isso, perpetuaram suas tradições, acabaram por adquirir um espírito de resistência e mantiveram sua essência, em boa parte por conta da arte que produzem. A experiência na comunidade foi propiciada pelo encontro da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS). Quando chegamos, fomos recebidos pelas pessoas com a comida símbolo de Cabo Verde, a cachupa. Sinal de que fomos realmente acolhidos.

Comunidade de Rabelados

Além de Praia e Rabelados, fomos na Cidade Velha, antiga Ribeira Grande, fundada em 1462 e primeira cidade construída pelos portugueses nos trópicos. Algumas construções estão toda ou parcialmente debaixo da terra, há muitas ruínas e algumas escavações arqueológicas podem ser vistas no entorno da cidade. Tudo é tão pequeno – a praça, as ruas, as casas – que dá para fazer um tour bem legal em uma manhã. Mas como cidade não é só ponto turístico, é bom ficar pra andar pelos espaços fora do eixo, conhecer algumas pessoas e comer a comida local, como a cachupa, búzios guizados, lagosta ou filé de atum fresquinho.

Cidade Velha 2

A sensação de andar pela Cidade Velha é de andar pelo Brasil antigo… mas como eu saberia disso? Acho que é a impressão do imaginário do passado colonial criado pela história e pela literatura. Andando pelas ruas, eu me sentia como nas descrições que Aluísio Azevedo fez em O cortiço ou em Casa de Pensão.  Uma senhora que conhecemos em Praia nos disse que lá as pessoas costumam gostar muito do Brasil e é corrente a expressão de que Cabo Verde é um Brasilinho.  Acontece que tudo o que os portugueses fizeram aqui foi feito primeiro lá; Salvador, na Bahia, é como uma grande Cidade Velha. Cabo Verde era a parada das embarcações que saiam da Europa, passavam pela África e partiam para a América.

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Cabo Verde me marcou profundamente. As pessoas de lá, que parecem ter no espírito a expressão da natureza que as rodeia, são simpáticas e bonitas ao mesmo tempo em que são fortes e orgulhosas, além de terem aquele sotaque que parece música. Nos dias em que estive lá,  fui interiorizando a paisagem cortante, o mar de azul muito escuro, as montanhas negras e áridas e os vales verdes e úmidos, uma natureza tão diversa e ao mesmo tempo tão resistente e bela. E mais uma vez, mais uma viagem me transformou.
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Amanhecer em Rabelados

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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