Leitura: O inventário das coisas ausentes

…e algumas considerações sobre ler mulheres

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Anne Sexton

Fui em uma livraria com a intenção de procurar autoras brasileiras contemporâneas. Primeiro porque eu andava lendo muita literatura clássica, minha cabeça estava entre o século XVIII e o XIX, completamente ignorante do tipo de escrita produzida agora. Depois porque eu comecei a me incomodar com uma ideia reproduzida por aí afora de que mulher escreve e publica pouco porque é mais acanhada que o homem, como se isso fosse uma característica que nascesse com a gente. Uma ótima desculpa para esconder o privilégio dos homens e a desigualdade entre gêneros decorrente disso. Eles quase sempre têm mais visibilidade e, principalmente, legitimidade ao falar e escrever. É como se o homem falasse algo universal, de interesse para a humanidade, e a mulher ficasse restrita a assuntos que interessam apenas ao próprio gênero.

Em As mulheres ou os silêncios da história, a historiadora francesa Michelle Perrot escreveu sobre como a mulher ocidental, pelo menos até o início do século XX, teve o espaço público e tudo o que o envolve negado: a rua, a cidade, a política e, consequentemente, a expressão pública da fala, da escrita, das decisões políticas e de tudo que não ficasse restrito ao lar. Incentivadas à discrição e, quando não, obrigadas à reclusão no âmbito privado, algumas mulheres, geralmente de classes privilegiadas, escreveram suas histórias em diários e cartas, interrompendo um pouco do silêncio a elas destinado, deixando um rastro de memória a partir da escrita íntima.

Foi acompanhando o debate em torno da visibilidade da literatura produzida por mulheres que eu me voltei para algo que sempre me incomodou um pouco, mas que nunca havia questionado muito profundamente – e também nunca havia feito nada a respeito. Mulheres escrevem, mas a gente não ouve falar tanto nelas quanto ouve falar dos homens. Dentre os livros considerados clássicos, quantos foram escritos por mulheres? Em uma dessas listas de internet, de cem apenas cinco. São eles que aparecem, que têm mais visibilidade, é sobre eles que a gente ouve falar. E, penso eu, é isso que faz com que a maior parte da nossa leitura continue sendo aquela escrita por homens, em detrimento da produção das mulheres.

Então eu fui numa enorme livraria com uma convicção simples: comprar uma obra escrita por uma autora brasileira contemporânea. Me senti meio mal por não conhecer o nome da maioria das escritoras mais jovens e fiquei triste por não encontrar as que leio na internet naquela livraria. Viajei sentada no chão dos corredores procurando nomes de mulher. Infelizmente eram poucas e ainda assim eu não conhecia quase nenhuma. Mas me senti inspirada por um título numa capa verde água…

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

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Tem algo de existencial nele, uma linguagem fluida e uma narrativa que parece alguém falando com a gente. O estilo de escrita é meio ofegante, com duas vozes se misturando numa mesma frase, como quando alguém conta um caso. Isso torna a leitura veloz, mas ao mesmo tempo gostosa.

O narrador é um escritor que quer falar de Nina, alguém que está ausente na vida dele e com quem ele teve um caso rápido quando ambos ainda estavam na faculdade, onde se conheceram. Mas ela vai embora de repente, sem dar explicações, e deixa com ele uma caixa com 17 diários.

Descrevendo os acontecimentos o narrador também parece escrever um diário; devaneios sobre a própria escrita, algumas lembranças e histórias paralelas, enquanto tenta elaborar uma ficção na qual Nina e ele são personagens. A obra é sobre o ato de criação na escrita; a vida do narrador e a ficção criada por ele se confundem.

O livro me prendeu, a leitura é viciante. Só não li as 122 páginas mais rápido porque parava em várias passagens, me reconhecia nelas e viajava nas sensações provocadas pela narrativa. É o tipo de história que me extasia, a que explora os sentimentos dos personagens. Não há a concretude de uma cidade, um local bem estabelecido sendo descrito e vivenciado. O universo é o interior dos personagens e suas emoções duras e reais, o amor e o desamor, a presença, a ausência e as fugas nas relações, é sobre o medo e o ódio, as mortes em vida e a memória.

A cada bocado de livro eu parava para pensar e escrever e se escrevo muito enquanto leio uma obra, é porque ela tem sido inspiradora de alguma forma, tem mexido com coisas dentro de mim, meus padrões, minhas ideias e emoções. A história de O inventário das coisas ausentes vai e volta, é repetitiva, como um martelo fincando um prego, materializando os sentimentos narrados, como um prego entrando na gente.

“Você quase nunca me beija, ela reclama. É claro que eu te beijo, que ideia, pronto, acabo de te beijar. Nina esboça um sorriso, mas o seu olhar é tenso e melancólico. Eu a puxo para mais perto de mim. Queria te beijar mais vezes, eu penso, mas esqueço, quando vou ver o dia passou e a noite passou e eu esqueço, queria te beijar mais vezes, mas esqueço, eu quero dizer, mas ela não entenderia. Ficamos os dois em silêncio, eu observo a infiltração do teto, a infiltração adquire novos relevos a cada chuva, o mofo ameaça se instalar. Porque você não manda dar um jeito nisso logo de uma vez, pergunta Nina, como se ouvisse meus pensamentos, eu esqueço, respondo. Quer que eu chame alguém, ela pergunta, aquilo me causa um incômodo instantâneo e irracional, não, não precisa, deixa que eu mesmo cuido das minhas coisas, digo imediatamente, sem conseguir disfarçar a agressividade na voz. Nina se afasta, responde, por que você faz isso?, isso o quê? eu pergunto, pensando que ela se refere à infiltração, mas ela diz, você quase não me beija, você quase não quer sair de casa, você quase não fala comigo direito, e quando fala é com tanta impaciência, esse desamor. Para que você me quer aqui?, talvez seja melhor eu ir embora. Nina me encara triste, derrotada. Eu a abraço com força, eu penso, não vai, Nina, não vai, fica, eu penso, mas não digo nada, e novamente eu esqueço, e passam-se mais dias e mais noites.”

Um comentário sobre “Leitura: O inventário das coisas ausentes

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