Das resoluções de ano novo

…ou cinco revoluções para a vida

Todas as resoluções de ano novo que eu não fiz no papel, de alguma forma guiaram escolhas e comportamentos meus nos últimos meses. Durante alguns anos, fiz listas com tudo que esperava, mas depois de esperar e terminar sempre com a sensação mortificante de que alguém estava sendo irônico comigo por eu ter a pretensão de esperar por algo, depois de sofrer dores profundas com ansiedade doentia pela espera de qualquer acontecimento, comecei a entender o valor inestimável e verdadeiro de algumas coisas que dizem respeito somente ao nosso estado de espírito e ao nosso ânimo quanto às escolhas que fazemos na vida. Me peguei desejando aquelas que não têm nada ou quase nada de material e pretendo, sinceramente, me manter próxima delas o ano inteiro.

Solidão

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Os últimos anos foram de excessos: dias cheios, noites em claro, pessoas demais, ideias, desejos, conflitos entre tudo isso, e eu, apesar de todos os meus “dispositivos naturais” que tendem ao isolamento, cada vez mais distante de mim mesma, por raramente conseguir estar só.

Solidão talvez seja controverso nesse século, por se constituir em um medo, mas não é um medo meu. Dias excessivamente cheios, quantidades grandes de pessoas por muito tempo, especialmente se eu não tiver relações profundas com elas, me estressam e me deixam doente.

Ficar sozinha, não isolada de mim mesma, mas dos barulhos do mundo, reais e virtuais; essa solidão que é tão rara e tão necessária para organizar pensamentos, mergulhar em si, compreender as próprias emoções e aprender a lidar com elas, é a primeira das resoluções.

Profundidade

A superficialidade quase sempre me incomoda, mas nos últimos tempos tenho percebido como é fácil se manter na superfície.

Para ler cada vez mais, não lemos com prazer, nem nos aprofundamos nas leituras. Para ver cada vez mais, vemos muito pouco de cada coisa. O excesso de informação não preenche as lacunas, pois dela não se faz quase reflexão nenhuma; a necessidade de parecer ser qualquer coisa e os espaços de expressão nos quais todo mundo é crítico, mas em que muito pouco se constrói e, menos ainda, se desconstrói, deixam todas as ideias boiando na superfície.

A segunda resolução também tem a ver com paciência, porque aprofundamento em qualquer coisa que seja exige uma boa quantidade de tempo. A prática cotidiana por trás dela envolve leituras feitas com tranquilidade, releituras prazerosas e sem culpa com o tempo que corre.

Entrega

Nunca desejei tanto escrever como tenho desejado nos últimos meses. Assim como fotografar, a escrita é uma forma de expressão e eu penso que essa necessidade que tenho sentido tem a ver com a busca pelo essencial e pelo encontro comigo mesma – que eu imagino e espero não ser um encontro com meio e fim.

Apesar de fotografar pouco, escrevo menos ainda e a despeito da frustração que sinto por fazer pouco uso desses meios, eu jamais saberia escrever por escrever ou fotografar por fotografar; escrever ou fotografar qualquer assunto para acumular histórias vazias em troca de visibilidade e dinheiro não é um objetivo.

Mas não é por essa exigência que pretendo tornar raras as coisas que para mim são tão importantes e, se sinto necessidade delas, melhor me entregar a isso, em detrimento de outras atividades que não são tão importantes e que mesmo assim andaram tomando minha energia e tempo. A terceira resolução tem a ver também com dedicação e constância.

Encontros

O encontro comigo mesma, apesar de não tão frequente, é muito mais acessível que outros encontros. Andei distante de pessoas importantes para mim, dentre amigos e família, por motivos que variam desde a eterna falta de tempo até a priorização de uns em detrimento de outros.

É uma resolução bastante incomum, dadas as circunstâncias que me fazem sentir cada vez mais vontade de ficar só – o excesso de tempo passado longe do silêncio e da solidão com meus próprios pensamentos, a quantidade de gente desnecessária no mundo, que me faz sentir algo perto da decepção constante, o cansaço e, quem sabe, um certo egoísmo meu.

Entretanto, sinto falta de mais encontros com os poucos amigos que sempre foram tão amigos, da família, que mesmo com todos os defeitos que uma família pode ter, é sempre das mais amigas e, sobretudo, sinto falta de passar tempo com pessoas que vejo com muita frequência, mas não raro com pouca qualidade. A falta é de encontros mais profundos com quem tenho conexões profundas, aqueles encontros que tão leves quanto sejam, ainda assim são profundos. Essa é a resolução mais gostosa do ano.

Acreditar na incerteza

Um dos comportamentos humanos mais banalizados e menos discutidos é a falta de crença das pessoas na tristeza. É inacreditável ver como não existe espaço para o reverso da existência e como elas perseguem incansavelmente a felicidade, mas vivem tristes por não conseguir alcançá-la.

Eu poderia correr o risco de julgá-las, já que sei ser feliz ao lado da tristeza, me sinto inspirada por ela, acredito e confio nela como uma das formas mais seguras para sentir uma felicidade genuína, que não deixa de ser efêmera; de alguma forma ela me torna melhor. Mas sofro de um mal parecido demais com o delas para não entendê-las: sou ávida pela certeza – e tentar encontrar o caminho da felicidade é um pouco de medo do incerto.

Sei bem o quanto a necessidade de controle pode ser nociva, por isso tenho como a resolução mais importante do ano a confiança nas incertezas da vida. Tentar planejar cada momento da existência, sofrer ao fazer escolhas, pensar que um passo em falso pode levar à ruína, tudo isso é insanidade e já me trouxe problemas demais para que eu não possa abrir a mente e deixar espaço para o mistério. Planejamento é necessário e bom de fazer, mas não se apegar a ele é uma forma de não sofrer à toa. Deixar a vida levar de vez em quando é a melhor opção.

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Fotografia: Alexandra Duarte

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